Governo Temer planeja substituir Murilo Ferreira no comando da Vale.

O governo do presidente interino Michel Temer planeja a substituição de Murilo Ferreira na presidência da Vale, segunda maior companhia do país e principal mineradora de ferro do mundo. Segundo apurou o Valor, o principal motivo da troca de comando na empresa é que Ferreira é ligado a presidente afastada Dilma Rousseff e ao seu ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

Temer está sendo pressionado a trocar o comando da empresa, especialmente pelo PMDB de Minas Gerais, mas ainda não tem uma decisão sobre a mudança. O PMDB mineiro está à frente do movimento político pela substituição do executivo, mas segundo interlocutores do presidente interino a insatisfação com a Vale é manifestada também por outros setores, inclusive da sociedade mineira.

A Vale é controlada pelos fundos de pensão Previ, Petros, Funcef e Fundação Cesp, reunidos na holding Litel Participações, pela BNDESPar, por Bradespar (holding do Banco Bradesco) e pela trading japonesa Mitsui. Esse grupo de acionistas está representado por meio da Valepar, dona de 53% das ações com direito a voto da companhia.

De acordo com uma fonte, o tema ainda não foi tratado pelos acionistas controladores. "[O pedido de mudança] ainda não chegou aqui", comentou um dos acionistas. A princípio, os acionistas controladores não gostariam da ideia de tirar o executivo antes do fim do seu mandato, em abril de 2017. Acham que seria um sinal ruim para os investidores, principalmente, os do exterior, onde a Vale está listada.

Ferreira assumiu o cargo de presidente na Vale, onde já fora diretor da área de metais não ferrosos, com passagem pelo Canadá, em maio de 2011. Ele substituiu Roger Agnelli, que ficou dez anos no cargo e havia sido uma indicação do Bradesco. Agnelli perdeu o cargo por pressão do governo Lula.

A escolha de Ferreira na época surpreendeu o mercado, pois seu nome não estava previsto em nenhuma lista de potenciais candidatos. Segundo uma fonte disse ao Valor, ele foi indicado a Mantega pelo amigo Demian Fiocca (ex-presidente do BNDES em 2006/2007, ex-diretor da Vale e ex-presidente do Banco Nossa Caixa). O ex-ministro levou a sugestão a Dilma, que a aprovou sem titubear por já conhecê-lo.

Desde que assumiu a companhia, Ferreira vem exercendo um trabalho de redução de custos, enxugamento do portfólio de negócios com venda de ativos e rigidez nos investimentos. Hoje, o foco é no corte do endividamento, porque houve grande aumento da sua alavancagem financeira. Há uma cobrança forte do mercado porque ele não conseguiu executar os desinvestimentos de alguns ativos - por exemplo o carvão de Moçambique - dentro do prazo que a própria companhia anunciou.

Entre as críticas à gestão de Ferreira está o comportamento da companhia durante o acidente ambiental da Samarco, empresa controlada pela Vale em uma joint venture com a anglo-australiana BHP Billiton, De acordo com interlocutores de Temer, a Vale tratou de "maneira incompetente" a crise de Mariana (MG), fruto do desastre ambiental provocado pelo rompimento de uma barragem para tratamento de rejeitos de minério de ferro.

A Vale, conforme esses interlocutores, também é criticada por "falta de solidariedade" com os moradores de Mariana e com os mineiros, de um modo geral. O acidente, que ocorreu em 5 de novembro do ano passado, teve repercussão internacional.

Segundo fontes afirmaram ao Valor, Michel Temer ainda não tomou uma posição sobre a mudança na Vale. Isso implica negociação com o Bradesco, um dos acionistas da empresa. As especulações em torno de nomes, por enquanto, ocorreriam do lado de fora do Palácio do Jaburu.

Entre candidatos os cotados são lembrados os nomes de Tito Martins, ex-diretor da Vale na gestão Agnelli e há cinco anos no cargo de presidente da divisão de metais não ferrosos do grupo Votorantim. O executivo ficou mais de 25 anos na mineradora. Outro nome é o de José Carlos Martins, também ex-diretor da Vale.

A escolha do presidente da Vale, em teoria, tem de seguir um rito: passar pelo consenso de pelo menos três dos acionistas controladores. E sem o apoio do Bradesco, os fundos de pensão, BNDESPar e a Mitsui não conseguem trocar o executivo. Mas, no caso de Roger Agnelli, no fim de 2010, com o desgaste na briga com o governo Lula, ele acabou perdendo apoio até dos sócios privados.

Fontes próximas à Vale dizem que Ferreira teve o contrato de trabalho renovado até abril de 2018 como uma demonstração de apoio do Bradesco e Mitsui ao executivo durante o processo de impeachment da presidente Dilma. Porém, oficialmente, o mandato dado pelo conselho de administração termina daqui um ano. Isso não significa que os acionistas não possam tirar o executivo do cargo antes do término.

Bradesco e a Previ informaram que não comentam o assunto.
Fonte: Revista Ferroviária

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